Diz a wikipedia:
Um buraco negro clássico é um objeto com campo gravitacional tão intenso que a velocidade de escape excede a velocidade da luz (299.792,458 km/s, equivalente a 1.079.252.848,8 km/h). Nem mesmo a luz pode escapar do seu interior, por isso o termo "negro" (cor aparente de um objeto que não emite nem reflete luz, tornando-o de fato invisível).
O meu particular buraco negro tem nome (e mesmo pode que apelidos), e no seu interior existe luz. Apavora-me o seu campo gravitacional mas estou tramada, já nada se pode fazer para evitá-lo. Deixo-me atrapar por ele e fico surprendida. Nada de assustador nessa atracçom, será que a minha velocidade é maior que a da luz.
É mesmo fácil deixar-te cair no fundo. Que a nostalgia e a tristeza te arraste até assinar actos com os que não concordas. Ficar mais no fundo ainda quando és consciente da velocidade da caída. Ter pena de ti. Ter vergonha de ti. Deitar a culpa na lua cheia, na pressão atmosférica... E ser consciente do apertada que voltas ter a mão, segurando com força algo que apenas é possível segurar se deixares solto. É por isso que consegues abrir a mão aos poucos e subir de novo, olhando para o abismo, acreditando que é igual de fácil estar na cima que no fundo. Escolhes a cima.
Levo a cabeça adiantada. Sempre 15 minutos por diante da vida. Ou 15 dias. Um relógio desajustado é sempre uma máquina assustadora. Não se deve brincar com o tempo. Trato de ajustar a hora com um esforço de herói antigo. Mas já se sabe, os relojoeiros advirtem: as agulhas do relógio só podem avançar. Assim, condenada a levar a cabeça adiantada enfrento a vida.
Sintaxe do amor impossível: erro por falta de concordância.
O mundo tão grande e tão pequeno, tudo na mesma vez. Pequeno de mais para estar no mesmo dia em dous mundos, dous climas, dous cheiros, dous (milhons) de emoções diferentes. Um mundo tão grande que cria um abismo impraticável aqui ao meu lado, no mais perto, no coração. Um abismo que causa enjoo só de olhá-lo. A beira desse abismo é mole de mais, podes pisar em qualquer momento e esbarrar, ficar do lado do nada. Do lado em que nada vale, em que ninguém vale.
O fastio às vezes de viver intensamente. Cansa tomá-lo tudo tão à sério. Saber que no mundo há muita podredume e, talvez, essa podredume seja mais real do que qualquer flor bem cheirosa do jardim. Mais real e mais cinematográfica a grande debacle do mundo, mais contável que os pequenos sucessos de cada dia. A alegria sempre é minúscula se compararmos. Não cotiza no mercado, o seu valor não é quantificável, não existem milhonários de alegria.
No entanto, até a podredume mais imunda é abono no jardim.
Apesar do faz de conta, do treinamento para ter tudo baixo controlo, da contínua medida das coisas... Apesar do hemisfério direito e também do esquerdo, do cérebro a construír estruturas sólidas e explicações exactas... Apesar de não acreditar em deuses nem Iemanjá, apesar de ter tudo agarrado com exactitude... Apesar.
Existe um dia no calendário e umas quantas riscas nos dias anteriores a ele, uma contagem cara atrás. Existe um bater mais forte do coração, uma esperança linda e perigosa, uma confiança além da fe. Existe um desejo, uma necessidade de que tudo páre já e comece de novo. Existe uma distância física que não concorda com nada.
Apenas mais vinte e quatro dias.
Às vezes o mundo te surpeende com o seu rosto mais inconsciente. Nesse rosto habita a imprudência e o impudor. É uma corrente que flue vertiginosa e imparável. Se não tens uma boa póla, uma árvore antiga e dura a que agarrar-te, arrasta-te com força, dá golpes no teu corpo, faz com que te abatas a outros corpos e cospe-te em qualquer beira.
Despida, com as marcas roxas dos golpes, desorientada, com dous ou três cadáveres ao teu redor, outros corpos que arrastache na tua inconsciência, tratas de voltar ao lugar do começo. Nadar contracorrente é heroico, é épico, mas impossível.
Não há solução para esta ocasião. Por isso, abandonas esse rio e mergulhas noutro. Nesse, sabes perfeitamente, não vas deixar de agarrar a árvore.
Que é o mesmo que dizer regressos. Retornos necessários e impredezíveis, a vontade de escrever, a necessidade de escutar, as lembranzas. A nostalgia não, essa não volta, apenas ainda não se foi.
Voltas.
Que é o mesmo que dizer giros. Viravoltas entorno a uma noite que é dia ao outro lado do oceano. Viravoltas entorno a um verao que é inverno noutro lugar.
Voltas.
Retornas ao silêncio e a desinspiração.
Média vida afastando flashes, com medo a que luz fique e já não seja possível olhar sem ser através dela.Vivo agora baixo um foco de alta potência, com a seguridade do inevitável. A natureza dessa luz vai além das minhas capazidades, dos meus recursos. Fico abaixo, apenas grudada a essa energia. Não adianta desligar.
Tenho um tempo em suspenso, um tempo que fica fora do tempo. É só para mim (e nem tanto), vou ficar gostando dele, com a leveza e a lentitude que requer um tempo meu, apenas meu. Neste tempo há algo tão especial, tão natural, que não sou quem de descrever. Estou eu, tomara que pudesse escrever como soa neste tempo esse eu. Pronunciá-lo fai parte dele. Estou eu. E não estou só.
Parece impossível que exista mundo além desta ilha de terra, fraga e vento. Ficas atirada na relva, submergida em ensonhações, lembrando outra vida que também tés, uma vida em que há carros, ruas, trabalhos, copas... A quilómetros de distância física, a anos luz de distância global. Ficas em suspenso para atrapar este minuto, este instante em que apenas existe a erva verde, o vento, as folhas de carvalho e uma dúzia de mosquitos que fazem de ti o seu banquete.
Não é preciso estar em todas as situações do mundo para conhecer a sua música, para saber dos movimentos, do ritmo do coração. Pode que nunca fosses abandonada, mas a desolação que sentes em domingos de chuva com os telefones silenciados pertence à mesma melodia. Talvez não tenhas sentido a paixão amorosa que linda com o esquecimento, mas a alegria que sentes apenas por olhar um rosto, o nervosismo dos minutos antes de encontrá-lo, as estupidezes ditas como se fossem as únicas verdades possíveis fazem parte da mesma sintonia. O abraço dum menino ao que acabas de oferecer uma larpeirada tem o tremor do agradecemento filial. Sim, não é preciso experimentá-lo tudo. Apenas ter o ouvido atento e o coração aberto.
Para o resto das cousas, para as que é impossível compartir, para as que não tenhem nome, para as que não deveriam exisitr, respeito.
Contra a fealdade o prazer. Porque a vida já é suficientemente complexa e os acontecementos sucedem sem necessidade de ajudá-los. Porque as desgraças nunca venhem sós (sabedoria popular). Por isso, dança comigo até o fim do amor, abraça-me não como se fosse esta noite a última vez mas como se fosse a única. Não me contes agora a dor. Vamos deixar que a música se acabe e a pele transpire as tristezas. Vamos ficar colados enquanto dure. Vamos fazer que a Terra não pare, que continue a girar apesar. Vamos perpetuar a dança como quem perpetua uma espécie, como quem acredita na salvação. Contra a tristeza o prazer.
Cada dia novo, sem clasificações nem medidas. O prazer. A descoberta. Viver de novo cada repetição como se não tivesse existido nunca. Primeiras vezes cada dia, em cada olhada, em cada morango com sumo ou cada copo de vinho. Tudo na vida deveria ser uma descoberta. Até as repetições.
Se os exames se fizessem sobre as matérias certas estariamos todas reprovadas. O que se passa é que os exames são sobre cousas absurdas como o Cid Campeador ou o seno e o coseno. O que se passa é que só nos perguntam se há quatrocentos e tantos anos se descobriu o que... Há que começar a mudar a dimensão da tragédia.
Pintas uma risca nas pálpebras, passas com carinho a escova do cabelo, reparas um pêlo mal depilado que teima por saír. Duvidas diante do guardarroupas uns minutos, demoras em decidir que é que combina bem com o teu dia, com o teu ânimo. No espelho afalagaste, diste o fermosa que estás hoje, o bem que levas os anos que figeche não há muito, o bem que levas a tristeza e esse amor a apodrecer e fazer pouso. Por se isto não chegar sobes encima duns sapatos de saltos comprados especificamente para uma situação assim. Sais à rua.
Como não dá certo, compras um maço de tabaco e procuras-te uma cortina de fumo.
Permitide-me esta excepção roubada de dous sítios diferentes:
O Professor está sempre errado.
O material escolar mais barato que existe na praça é o professor!
(JôSoares)
É jovem, não tem experiência.
É velho, está superado.
Não tem automóvel, é um pobre coitado.
Tem automóvel, chora de "barriga cheia'.
Fala em voz alta, vive gritando.
Fala em tom normal, ninguém escuta.
Não falta ao colégio, é um 'caxias'.
Precisa faltar, é um 'turista'.
Conversa com os outros professores, está 'malhando' os alunos.
Não conversa, é um desligado.
Dá muita matéria, não tem dó do aluno.
Dá pouca matéria, não prepara os alunos.
Brinca com a turma, é metido a engraçado.
Não brinca com a turma, é um chato.
Chama a atenção, é um grosso.
Não chama a atenção, não sabe se impor.
A prova é longa, não dá tempo.
A prova é curta, tira as chances do aluno.
Escreve muito, não explica.
Explica muito, o caderno não tem nada.
Fala correctamente, ninguém entende.
Fala a 'língua' do aluno, não tem vocabulário.
Exige, é rude.
Elogia, é debochado.
O aluno é reprovado, é perseguição.
O aluno é aprovado, deu 'mole'.
É o professor está sempre errado, mas, se conseguiu ler até aqui, agradeça a ele.
(Fonte - Revista do Professor de Matemática, no.36,1998.)
E falando em agradecer:
filosofia da mobília
a esta princesa chega-lhe uma enxerga e faz um retiro
[oferece-lhe também a aristocrata ervilha]
a esta guerreira basta-lhe um sofá e constrói um descanso
a esta ratinha abondam-lhe duas estantes e rilhas nos livros
rilha que rilha
a esta branca de neve dá-lhe um espelho e revela-se ilimitada
eis a mobília necessária para imaginar um paraíso.
Susana Sánchez Arins, (De)construçom.
Há frases muito bonitas que les e te seduzem. Frases pensadas como um doce para que saborees e goces como um prazer primário. Costumão servir para autoafirmar-te, sentir-te melhor, acreditar um pouco mais nas tuas limitações. A pouco que fiques parada, que as releias, reparas na falácia.
Rememoro uma da adolescência, copiada ritualmente no começo do caderno "O importante não é mudar o mundo mas que o mundo não te mude a ti".
Não seria nem a metade do que são se o mundo não me tiver mudado a mim. Se a vida não fosse limando rigideces, se não fosse colocando-me no meu ridículo lugar, se não me reduzisse ao tamanho justo... Que tipo de estúpido egocentrismo pode fazer que acredites tanto na tua certeza que não precises mudar? Qual é a dimensão dessa ignorância?
Provisionalmente, acredito noutra frase menos vistosa, sem fogos artificiais nem figuras retóricas. "O importante não é que o mundo não te mude, mas que a mudança te faga melhor pessoa."
Diz Mia Couto "Acredito que a essência do Homem e não ter essência". E fico desapontada. Que faço eu neste lugar mas que procurar essências, as minhas e as do Homem (com maiúscula ou minúsculta tanto faz, apenas é o mesmo homem). Talvez seja que a essência da Mulher é ter essências, em plural ilimitável e por isso ainda continuo a procura. Sei, com a incerteza na que já estou certa de habitar agora e para sempre, que esta é a procura que me manterá viva.
Mais adiante, Mia Couto reconcilia-me com ele e o Homem "No início, viajámos porque líamos e escutávamos, deambulando em barcos de papel, em asas feitas de antigas vozes. Hoje viajamos para sermos escritos, para sermos palavras de um texto maior que é a nossa própria Vida."
Sou fraca, as estações abanam-me e levam-me a onde querem. Se é outono amorrinho no sofá com copa de vinho, talvez charuto e sempre livro. Um espectáculo, um quadro, um tópico mais duma vida cheia de tópicos. Se é inverno faço o mesmo mas com um cobertor encima. E no canto de copo de vinho farto-me de antidepressivo chocolate.
Na primavera, a gente sabe, é um vir e ir continuo. Uns dias no cumio do monte, a gritar a felicidade porque não cabe dentro; outros, fazendo mergulho pola nostalgia e lamentando ter o que tenho e não ter o que desejo. Outro quadro tão parecido consigo mesmo. Outro tópico de entre os tópicos.
Sou forte, dou-lhe sempre a volta as estações. Sou capaz de gritar a felicidade no inverno e amorrinhar no verao. Apanhar a nostalgia aí bem onde lhe doi, olhá-la bem enfrente com a confiança que dão os muitos anos compartidos e ensinar-lhe os dentes. Não lhe tenho medo.
Sou tão predezível. Não é que sempre faça o mesmo ou que sempre tenha os mesmos pensamentos, dúvidas, confortos... Não. É que tenho o de toda a gente. Já li o roteiro em milheiros de filmes e em centos de livros. Já sei o que sucede. Agora são os 34 e toca sentir desta maneira, desfazer as malas por fim e guardar a roupa. Talvez deixar o saco-cama no carro para agarrar-me um tempo mais à juventude. Mas depois dos 34 virão os 35 e será... como toda a gente.
Não, não sou nada original. Mas olho-me no espelho e sou capaz de suster-me a olhada. Há algo nessa imagem que me satisfaz, algo de repetido, de visto, de predezível.
Sou eu... tão humana.
Voltar ao passado só um minuto. Tão leve como uma pena levada polo vento. Ficando em suspenso como ela, sem itinerário. São necessárias poucas cousas para voltar ao passado. Uma carícia no cabelo, uma foto, uma olhada... Tão fácil.
O que não é tão fácil é o futuro.
Quando vos falte nestas páginas, quando notedes a minha ausência nesta janela que nem é oral nem geográfica, alegrade-vos. Nesses dias estou vivendo para mim. Com um limite claro entre eu e o mundo. O mais provável é que não vos telefone, que não me encontredes pola rua e, se me vedes, estarei em absoluto silêncio. Não vos preocupedes nem me achedes em falta. Encho-me de mim mesma para ter algo que oferecer-vos a próxima vez.
Há conhecimentos certos e inexplicáveis. São verdades absolutas que não se podem demostar empiricamente.
Um dia, na rotina geral dos dias sentes uma variação. Pode ser apenas um silêncio mais longo do habitual, uma olhada que se sostém uns segundos mais que a anterior, a sombra duma lágrima, uma mão que afasta no ár um insecto que não existe. Há multitude de sinais quase imperceptíveis que chegam a ti e são a verdade universal.
Às vezes dá-che medo conhecer a verdade. Esse insecto que não existe e a mão teima em afastar. Existe uma clarividência assustadora nas pequenas e imperceptíveis variações dos dias. Agarraste a ela porque é a única verdade inamovível.
"A vida é um erro cheio de cousas maravilhosas -a amizade, o amor-, mas um erro. Ir da inexistência à inexistência é um assunto estranho, não é? E isto a mim não parece metafísica. São factos. Ao fim percebes que a vida é um curso preparatório para a morte. Um aprende a conviver com o medo. Já que é um erro vamos atravessá-la da forma mais consciente possível, aproveitando as cousas boas e lutando contra as injustiças."
(desculpai a ousadia da tradução)
O deslocamento como terapia. Funciona no imediato, afastas a cabeça do centro do problema e o problema desaparece.
Lástima que já tenhas lido a Kavafis, que os seus versos te devolvam à realidade, e a realidade volte ao teu cérebro. A fantasia do deslocamento desaparece e voltas a estar sem cura.
Não há exílio possível mas que o exílio interior.
Que parte da tua vida continuas a viver para ti? Não fará tudo parte do espectáculo? Às vezes, o único autêntico parece esse tempo deitada no sofá, completamente fora do mundo. Sem nada para fazer.
O resto dos dias assemelham-se demasiado a um espectáculo. Cada movimento parece um pedaço de coreografia para o público. Olhai-me, olhai-me como vivo. Este é o meu corpo, esta a minha forma de caminhar, esta a minha voz que modulo para vós, o meu olhar profundo, os meus pensamentos filosóficos, o meu sorriso sedutor... Tudo para vós.
Tudo menos os minutos em que, completamente quieta, mesmo suspeitosamente quieta, não tenho nada para fazer. Não quero nada.
O vazio apenas dura uns minutos, nem sequer diários.
Show must go on.
Di Daniel Salgado em Días no imperio:
todo amor é platónico, raquel,
mirarte. a historia
aínda non sabida pero que chega
pola mañá.
a unidade dos condenados.
a terra que pesa nos pés. toda
guerra é civil e o lugar natal,
húmido. síntese
o lique nos ollos, que foi
do amado?
o muro de pedra,
a gándara escavada,
a casa alta,
o comezo dos invernos,
as mans de estares.
o poema cando non hai presenzas abondo.
e
do que veña,
apenas un regreso, aquela cidade
ardida de adeuses ou os espazos compartidos
a destempo,
raquel.
(Tão a destempo)
Às vezes a lógica das cousas fica do revês -ou do direito, que diria Cortázar-, e procurando a explicação mais simples apenas és capaz de encontrar a difícil. A errada. Às vezes parece que o mundo pára porque um telemóvel não responde e não podes confirmar a cita que tinhas. Não achas possível solução alguma, talvez, pensas, tenha sucedido algo de muito grave para que não apanhem o telefone quando tu ligas. É impensável pensar que simplesmente, o telefone não exista. E continuas sem achar solução.
No lugar da cita, uma menina bonita espera que chegues. Estás a pouco mais de trezentos ou quatrocentos metros do lugar. Mas não existe nenhum mecanismo no teu cérebro que te leve até ali. Simplesmente. Fácil. Caminhando os duzentos, trezentos passos que em cinco minutos te colocariam ao lado da conversa, do calor, das olhadas limpas, das conexões cortazarianas.
Na casa, outra ferramenta tão maravilhosa como inútil neste caso, dá-che a solução, a simples, a verdadeira. Ficas terrivelmente desapontada porque tinhas verdadeira vontade desse encontro. Mas também pensas, como Cortázar, que talvez a lógica do mundo seja outra, e este desencontro, talvez, também tinha que ser. És capaz de transformar o desapontamento e torná-lo, de novo, em verdadeira e enorme vontade do encontro. Na próxima ocasão.
O problema é que agora já não há sol, não tenho a luz para evitar a metafísica. A chuva convida à melancolia, convida a música lánguida e os sentimentos lentos. Apesar do ruído que ao meu redor fazem um monte de adultos com um computador diante das mãos. Estou só, apesar do ruído.
Apenas vontade de autoafirmar-me, de evitar os risos e ficar apenas com um copo de vinho e um gosto de chocolate preto na ponta da boca. Preto, sem açúcar.
O mistério das coisas? Sei lá o que é o mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério
Quem está ao sol e fecha os olhos,
começa a não saber o que é o Sol
e a pensar muitas coisas cheias de calor
mas abre os olhos e vê o Sol,
e já não pode pensar em nada,
porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
de todos os filosófos e de todos os poetas,
a luz do Sol não sabe o que faz
e por isso não erra e é comum e boa.
(...)
Fernando Pessoa
Há poucas cousas mais puras que um corpo nu. Não existe a mentira. Não se pode enganar ninguém com todos os graos, as nódoas, os pêlos enquistados, os acúmulos de gordura à vista de quem queira olhá-lo
Não conheço uma forma de entrega mais generosa.
Existe amor além das palavras, além das minhas, compreenda-se. Mesmo existe quando digo não. Quando tento esconder a olhada porque me apanharam in fraganti e pode que as palavras mintam mas os olhos não. Sei que esse amor nada muda, que o mundo continua a girar na mesma direcção e fazem falta as mesmas 24 horas para dar-lhe a volta ao Sol. Que continuo a estar só. Da forma em que se está só quando amas a quem não te ama. Também sei, como se sabem as grandes verdades -com desconfiança- que não vou esperar. Não estou feita da massa que se fazem os dramas, sofro com um sorriso na boca e choro sem fazer ruído. Uma lágrima que esvara por uma meixela é uma música triste davondo.
Sei que o que sinto hoje amanhã terá uma cor diferente. Por isso não sou trágica. Terei uma nova menstruação e recuperarei a força.
O amor seguirá, mas eu também.
Cinco maravilhosos discos na aparelhagem, música de verdade para escutar escutar. O Sol que entra pola janela, mesmo o ár frio que entra pola janela, aberta. Dous jornais com todos os suplementos possíveis no chão. O jantar feito. O tempo. Todo o tempo. Um caderno real para escrever o que às vezes não pode ser virtual.
Havia tempo que não me sentia tam bem, embora o constipado.
Estou tentada de cair, dizer tudo aquilo de que para o 2009 saúde e desejos cumpridos. Tenho tentações de cair nos tópicos, de lembrar-me das amigas que me lem e das que não o fão. Das que estão, estiverão ou estarão. Lembrar-me das ausências embora façam tanto dano. Estou tentada de enviar-vos mensagens em que vos diga o muito que vos quero e tudo o bom que tedes.
Mas a tentação mais grande é a de deixá-lo estar, nada do que vos possa dizer neste dia será tão fermoso como ter-vos ao meu lado.
Para o 2009, que estejades aí.
O que tenho: uma grande gaveta dentro duma mesa de cabeceira. Abre-se de vez em quando para deixar entrar visitantes e objectos novos, que se movem sem ordem nem controlo. As outras gavetas desta mesa de cabeceira estão igualmente habitadas, abrem-se da mesma maneira e os seus ruídos contaminão a minha. Ao nosso arredor, outras gavetas, outras mesas de cabeceira, outros armários...
Mas alguma vez volto à casa de dimensões naturais. De vez em quando posso escutar a lenha que arde na cozinha, um corvo distante que reclama o seu alimento, um silêncio gigante interrumpido umas poucas veces pola prosaicidade dum frigorífico que começa a funcionar. Um tempo enorme que se estira e se estira permitindo aborrecer-me. E sobretudo, muito espaço limpo e calmo na minha cabeça.
Marcas físicas: olheiras,talvez um pouco mais de gordura arredor da cintura, os olhos ligeiramente vermelhos e um pouco de congestão nasal.
Os sintomas não significam nada, gripe, catarro, uma noite de insónia... Mas o burato abismal entre a minha consciência e o mundo, esse, é inequívoco. Um abismo que devo saltar, quase cada dia, sem ajuda de paraquedas. Há dias em que encontro o valor para fazê-lo, e a cada passo que dou fabrico uma ponte baixo os pés. Outros dias, outros como hoje, só vejo a escuridão.
Tenho necessidade de escolher as palavras mais fermosas para hoje. Escolher as palavras que abriguem a todos com só pronunciá-las. Mas hoje não é dia de palavras. Como não o foram os últimos dias, as últimas semanas. Talvez a tampa que lhes impede sair poda abrir-se quando encontre a mais fermosa, ou apenas quando estar sentada com um ecrã na frente e um teclado debaixo dos dedos não seja uma ameaça.
Eu não posso escrever os versos mais tristes esta noite, não posso dizer que a noite seja estrelada nem tiritem, azuis, astros ao longe. No entanto, a lua cheia embebeda-me de insónia e não posso dizê-la. Não posso dizer o muito que pesam as pálpebras abertas, nem a quantidade de lumes que ardem e não quero apagar. Tampouco posso dizer o tempo, nem tenho linguagem para as mudanças.
E embora acredite em que é curto o amor e longo o esquecimento, não há palavra mais fermosa que essa.
o importante não é o que sintas, nem o que penses. O importante é apenas que acredites. Aquilo no que acreditas existe, e se não existe, não faz diferença.
Há demasiados filmes aí fora que me esperam. Filmes que me contam a vida, essa que não tenho tempo para viver. O meu trabalho dividesse e subdividesse segundo planos perfeitos, programados, com objectivos redigidos com os verbos em infinitivo e os passos a seguir quando tenha tempo a dar passos. Enquanto planifico não caminho.
Há que ser muito inteligente para ser feliz. Não é preciso conhecer teoremas, nem compreender ponto por ponto a lei da gravitação universal. A inteligência da que falo é outra mais difícil, é a de olhar para dentro e reconhecer-se, nos passos cara a diante e também nos retrocessos. Recorrer os caminhos com seguridade embora não levem ao paraíso, ou melhor, recorrer os paraísos com seguridade ainda que não levem aos caminhos. É precisa muita inteligência para ser feliz.
Está fermosa, com esse algo de magia que sempre, cheia ou não, se mete nas veias para que vires um bocado doida. Mais que outros dias.
En el aire conmovido
mueve la luna sus brazos
y enseña, lúbrica y pura,
sus senos de duro estaño
Na minha casa há também algo de comovente, talvez o prato da ceia abandonado no chão ao lado do computador onde tento... Se soubesse o que tento nom precisaria este teclado, nem um ecrã a cores esperando-me. Sim, virar um bocado doida, com o peso dos dias sobre as costas, e essa estranha certeza, essa estranha seguridade. És neste momento mais tu que tu mesma, que qualquer outro dia em que também és tu. Desde as gemas dos dedos que premem as teclas até o pé direito fazendo força sobre o pé esquerdo. Algum dos dous ficará dormido.
Não há música, nada pode acompanhar esta noite perfeita. Nem tu. Nada deveria existir esta noite.
Sempre tão distante do importante. Urgência. Todo para antes de ontem, todo no mesmo mês e com o mesmo sentido: nenhum. Entretanto o importante espera. Fazendo oco no cérebro, pinga a pinga. Deixando orfo o coração.
Tento decidir se me movo em círculos concêntricos ou em espiral. Decidir se o avanço é cara abaixo ou cara cima, e se merece a pena entrar de cheio na vorágine. Nom sei se haverá meta suficientemente atractiva. Mudaram-me os cartazes, e agora está a entrada onde antes se lia saída. Duvido entre pintar um novo luminoso ou apanhar-me com os antigos. Entre as dúvidas, acredito na mudança, nas fases lunares e no calendário maia.
O extraordinário é erguer-se todos os dias cedo. O extraordinário é ter forças para alentar, ir da casa ao trabalho, enfrentar o dia. O extraordinário é atirar uma cana ao mar e que saia um peixe. Sorrir sabendo que cada minuto é extraordinário. Fazer a cama sabendo que a vas desfazer apenas umas horas depois. Cozinhar para ti só com o mesmo carinho de cada vez, cozinhar para os demais e oferecer-lhes tempo, o teu. O extraordinário é amar.
O resto, anedotas. Escrever um romance, uma anedota. A decepção polo fracasso, uma anedota.
Palavras novas para denominar realidades antigas. Autofição. Leio que agora se chama assim isso que tanto practico num lugar que é também um mapa. Escrever duma mesma com a suficiente distância para estar a salvo. Palavras novas e velhos sentidos. A teoria queer da literatura. Apenas para confirmar que na literatura, como na vida, cabe tudo e tudo tem algum sentido.
Colecções de rosários, reencontros, tráfego, fotografias de viagens, lapis de cores, pastas, despertadores, amigas, voltas, rosários de colecções, listas, bons propósitos, emenda, dieta, cursos de línguas, trabalho, ginástica, festas comprometidas, exames, lembranças, jornais, leituras proveitosas, filas, projectos....
Aqui estou de novo, com a minha velha pele tão querida, deixando-me levar pola nostálgia e aprendendo a amar novas palavras e a resgatar as antigas. Aprender a amar "destino" aos poucos, perdendo-lhe o medo e os preconceitos. Aprendendo a amar "diário" com a rotina das felicidades minúsculas. Resgatando "fe" sem pôr-lhe mais companhia que eu própria.
Tudo tão incerto como a vida. Agradeçamos a incerteza.
Tudo agarrado ao estômago sem deglutir, apenas colado a ele. Trago um fio de seda e atiro dele pa-se-ni-nha-men-te. Nada. São mais de sessenta metros de suavidade no meu estômago e nada.Nada se agarra. Por isso experimento com um arame de espinho.
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
Pessoa ("Autopsicografia")
Apenas força. E um bocado de felicidade para enfrentar o dia. Se não fosse forte, se não fosse dura agora já estaria rendida. Quando me rinda, caerei com toda a equipa. Herdarei do meu pai o silêncio, essa maneira de passar pola vida sem molestar. Talvez também herde a sua maneira de morrer. Só e sem pedir ajuda, só e sem conforto. Desculpade, apenas passava por aqui. Assim estou, passando por aqui.
Tudo o que era sólido se torna líquido. E vice-versa. Fazer anos tem essa incoerência, o tempo que passa é cada vez mais consistente, mais físico, mais tangível. O presente cada vez mais líquido.
Por uma única vez fui capaz. Na tua frente. Olhando-te directamente meti-me nos teus olhos e vi através deles. Vi exactamente o que tu vias. A cicatriz na tempa esquerda, o nariz longo, um pouco desmesurado mesmo, a boca pequena mas definida, presente, o queixo bicudo. Vi a cara angular, imperfeita, fermosa. Depois fixei-me nos olhos, enmoldurados por umas celhas mal depiladas. Vi as pupilas castanhas e o íris preto e grande, vi além da olhada linda, além dos olhos bonitos. Vi-me na beira do abismo. Então compreendi por que tés medo.
Apenas uma mão apoiada no começo das costas, ocupando o oco da coluna vertebral. Uma carícia leve, que toca o rosto ao passar como ao acaso, e um sorriso nesse exacto segundo em que a olhada se cruza. Um passeio na praia escolhendo cunchinhas para um hipotético adorno no salão, um adorno que nunca será. Atirar dos cabelos como para fazer dano mas sem fazer, uma festa na cabeça. A gargalhada limpa por esse motivo que só tu e ela no mundo podedes conhecer. Uma mensagem ridícula no caderno em que fas a contabilidade doméstica, "you are so beatiful". A repetição de novo de outro lugar comum, outro tópico que é mais uma vez a verdade.
Às vezes saem tantas e tão fácil que por um momento é possível acreditar que existam, que realmente tenham algo que dizer. Ou o que é o mesmo, que tenha algo que dizer. Só que a maioria dos dias do ano, a maioria dos dias deste ano estão em silêncio. Faço força para que saiam, atiro delas porque necessito que se formem. Às vezes apanho uma caneta e apoio no papel, sabendo que a mão acabará por mover-se e dar-me algo. Mentiras. Mas algo do que pido ao fim. No entanto estão dentro de mim e ocupam muito espaço. Cada vez que me movo sinto como encaixam de novo, como o puzzle que devem ser milhares de palavras por dentro do corpo. Deve ser por isso que tenho que mover-me lentamente, com cuidado de não magoá-las, ou o que é pior, de provocar que assentem definitivamente. Estão aí quase como um fantasma, só que eu sei perfeitamente que não há nada de sobrenatural em estar cheia de palavras. E não vão sair. Apenas porque nada do que tenho para dizer se pode dizer com palavras.
Nunca perder a perspectiva. Quando te sentes desgraçada porque as pessoas à tua volta desaparecem, porque algum desafortunado acidente che toca a ti, porque tes que trocar uma semana de férias por uma obriga familiar que che chupa a energia draculianamente. Em qualquer circunstância segues sendo a mesma e segues sendo igual de afortunada. Não perder a perspectiva.
Talvez haja algum sentido na repetição da rotina. Que cada verão por estas datas tenha a mesma sensação de tempo que se estira, que se alarga, de absoluta liberdade para ir ou vir. É uma rotina de há muitos anos, uma rotina que sempre me surpreende como se fosse a primeira vez. Igual de agradecida.
Na realidade, é a mesma sensação de milagre que sucede quando dia após dia o sol volta sair. A mesma sensação de magia porque tudo segue rodando, porque nada pára, mesmo quando deveria fazê-lo. Há algo de absoluta ciência fição na continuidade.
Cidades, tão maravilhosamente ruidosas, tão cheias de gente, de vida. Ter sempre a cabeça em algo, ter sempre um plano para a hora seguinte e todas as horas seguintes a essa. Como se não houvesse outra hipótese.
Mas de repente, passas três dias noutro lugar e desejas que sejam quatro. Passas quatro e desejas que sejam cinco... Num círculo infinito. Mudam os ruídos, muda a luz, o tempo multiplicasse sobre sim próprio. Não tés outra cousa, apenas tempo.
Notas como a cabeça se vazia, não há planos nos próximos cinco, seis, oito.... dias. Certeza, o mundo ao teu redor muda e tu mudas com ele.
Era isto que se chamava férias?
Sentada no avião somos duas, eu e a outra. Eu a que se vai, e a outra a que fica, e também do revés. Mantemos diálogos imposíveis e mais uma vez acredito na fantasia doutra vida. Nem melhor nem pior, outra. Gosto de pensar que são livre, que um dia qualquer vou decidir ir embora e não vai haver hipoteca nem trabalho fixo que mo impida. Gosto de pensar que são livre e por isso fico nesta vida, que é mesmo a que quero.
Eu e a outra falamos e quase nunca estamos de acordo. Temos debates acendidos em que nunca sei qual ganha, se é que há vitória possível num debate. Zangamo-nos porque no fundo sabemos que nos queremos, que a uma sem a outra não seríamos. Por isso no avião, tanto a que se vai como a que fica sorrim felices e gozam de novo da sensação de irrealidade que é ir, durante umas horas, por cima do mundo, sem tocar terra.
Porque os teus olhos reflictem beleza quando me olhas, e o meu nome tem o número exacto de letras que necessitas para dizer amor. E não tens medo.
Lástima que para chegar a esta calma tivesse que navegar muitas tempestades. Agora mostro-che as feridas como se isto fosse uma guerra e tu o único rival com capacidade para transformá-las em caminho.
Ofereces-me a mão para levar-me por ele, e esse gesto não é nenhuma ajuda. Não vas atirar de mim. Por isso me gostas. Porque me acompanhas apenas, sem fazer força.
Nunca ousei sonhar-te.
Agora durmo ao teu lado e tampouco sonho. Ocupas o espaço na cama levemente, sem deixar marca, com a mesma leveza com que ocupas o tempo, a vida.
Na tua forma de amar-me há uma palavra tão grande que não cabe na boca. Por isso, ficamos em silêncio.
Passo de não conhecer uma palavra a escutá-la três vezes por segundo, será um sinal?
O mais provável é que sim, que a repetição de algo até o de agora desconhecido está a me dar muita informação. E o melhor de tudo: que o projecto de melhora pessoal se mede da maneira que eu gosto, com objectivos pequeninos e alcançáveis.
Também o projecto de melhora do mundo tem a mesma medida, se hoje consigo que uma mentira seja descoberta, o objectivo está conseguido. Faz falta apenas ler um jornal :-).
Uma chuva dum simbolismo quase divino, não é o dilúvio universal mas assemelha-se. Arrasta tudo por onde passa e uma, com a sua nova ou renovada esperança, confia em que leve o detrito, o despojo do mundo. Polo menos, o despojo do seu mundo.
Quando retorne o sol estarei pronta.
deste lado da história, as heroicidades são a escala 1:1.000.000. Nada de conquistar territórios novos, de perder a cabeça na guilhotina por ter sabedoria e genitais femininos ao mesmo tempo, nem sequer dous ou três dias na cadeia por contrariar um poder qualquer. Hoje as heroicidades são diminutas. Sugerir em voz baixinha que nos vestiários femininos estava bem que escrevessem os cartaces em feminino, que não se note que estás incomodada, apenas sorrir e desculpar-te porque ousas pedir uma mudança. De tamanho minúsculo. Pedir quase desculpas porque dis às tuas amigas que o mundo em que moras não é o que che contam, desculpa que te contrarie, não faças muito caso, mas se calhar as cousas sucederam doutra maneira e isso em que acreditamos talvez seja mentira.
Tudo escrito em minúscula e dito em voz baixa. Para que nada do que somos seja banido, que é o mesmo que dizer, para que nada do que temos seja banido.
Cada página deste diário é efémera, tem a mesma permanência que o alento... segundos, décimas de segundo. Cada fragmento é literatura. Embora seja a minha vida. Talvez é que literatura e vida são uma e a mesma. Talvez seja que é um diário, pessoal, e como diário e pessoal não deve estar aqui, sem pudor, ao público. Mas que vou fazer agora? Talvez o melhor seja voltar à tradição, ao papel, e deixar encarregado às amigas que seja destruído depois da morte (porque já se sabe, uma não vai nunca destruir a sua obra, o ego não permite...). Talvez.
A felicidade é uma construição diária. Não chega apenas com dizer, já está, sou feliz... Dia após dia, um esforço. Há dias que sai natural, que o Sol é muito e nutritivo, que a primavera já fez a metade do trabalho, que a música soa mais alta e mais energética, que as costas estão direitas e não precisas exercício nenhum. Mas outros dias... É um trabalho. Atirar o pé da cama sabendo que cada gesto vai significar um esforço, fazer o pequeno-almoço um esforço, fechar a porta um esforço, acender a rádio um esforço, tomar duche um esforço, subir as escadas um esforço. É nesses dias em que precisas lembrar a tua imensa fortuna, repetir-te que estás no lado bom e não há nada que não podas agradecer, sorrir diante do espelho porque sabes que o riso te constroi. Assim construída, com a felicidade como um doce que levas no peto disposto para qualquer momento, disponível. Essa é a tua tarefa diária.
"un pasito p´alante maría, un pasito pa´tras"
Assim é a coreografia do mundo, um passo para diante e outro para atrás. Embora os revolucionários recomendassem que para trás nem para colher impulso. A coreografia do mundo é lenta e impredecível, nom se sabe cara onde vai e apenas podes aprezar a beleza, a estética, o sublime... Impredecível, indefinida.
Às vezes é melhor que todos os passos sejam para trás, se afinal, não é importante a direcção cara onde vaias mas sim o que há na meta. Para diante para alcançar o quê? Que outra riqueza incalculável, que outro progresso, que outra máquina recém inventada para eliminar uma mais das actividades humanas? Não, os passos cara diante não sempre são bons. Às vezes é melhor ficar parada, quieta, no lugar em que estás, sem ambição. Às vezes é melhor ir cara atrás e procurar um lugar incorrupto, uma soidade menos barulhenta, uma integridade irrompível.
O mundo doe-me quando avança e não quero ser partícipe dessa dor. Não sei se tenho possibilidades.
Um passo cara diante e outro cara atrás, hoje, escolho cara atrás.
Quantos passos cara atrás tenho que dar para avançar um cara diante? Quantas determinações fracassadas para uma conseguida? Quanto tempo precisa uma para conhecer-se e continuar errando até dar com o correcto? Quanto sofrimento mais para voltar à alegria, aquela que sempre me acompanha, a que me faz responder sim quando alguém pergunta se sou feliz... Porque esqueço que sou feliz com demasiada facilidade, porque todo muda uma vez trás doutra, e falta-me uma segurança à que agarrar-me. Quanto?
A determinação segura e a seguridade determinada, condicionada. Nervos por ter tomado uma decisão necessária ou por não saber se a capacidade é suficiente. É preciso, é mesmo preciso ser um monolito. Inteiro. Sem brechas. Por uma vez ser forte para sempre, definitivamente. Erguer as costas e dar um passo firme. Dizer não. E desfrutar como nunca de cada minuto, de cada segundo. Desfrutar das bolachas molhadas no café -ou na infusão tranquilizante, tanto faz-, do sol da primavera e da chuva do inverno tudo misturado, como se os géneros já não tivessem sentido tampouco para a Natureza. Nesta mistura impossível que é a realidade, a modernidade depois da pos-posmodernidade. Sem catálagos, sem nada que nos defina.
Por uma vez, ter a definição exacta. Classificar. Fechar numa lista de características para saber porque isso não. Ter uma meta, e uma rota definida pola que caminhar. Por uma vez que não esteja tudo escravizado pola improvisação, que não tenha que adaptar-me cada dia a uma realidade nova. Não, por uma vez ter tudo claro. Saber que amanhã vai ser igual que hoje.
Por uma vez não ser moderna nem tolerante.
Desta vez as metáforas não ajudam, apenas ocultam, fazem desviar a atenção para a beleza ou para a literatura. Mas não é o que necessitas. O que precisas é pôr a palavra justa, a precisa, não dissimular baixo o símbolo para que alguém interprete e te deixe num lugar melhor do que estás. Não, precisas a palavra directa. Dizer em primeira pessoa: "sou eu, eu a que se enruga". Não inventar um narrador nem um "eu poético", não construir um labirinto com diferentes saídas para que escolhas tu que les. Preciso a primeira pessoa e a palavra justa.
(Mas para isso já está o correio ordinário com destinatárias precisas e necessárias, nele é que escreves a verdade. Com ela voltas a recuperar a tua posiçom)
Às vezes passas um periodo de seca. Tens tantas cousas na cabeça, no cabeção, que todo o resto emudece. Queres tirar algo de onde seja, fazer fluir de novo o rio, embora seja apenas um regato, algo, um pouco de líquido que vaia regando aos poucos o ventre, o fígado, o estômago, e mesmo esse órgão tão abandonado, tão maltratado...
Mas é a seca. Já não chove neste país. Não che chove. Por isso às vezes tens que recorrer a esses magros substitutos. Deitar um chorro de água por cima e contar o que não existe. Tirar, tirar, tirar da ausência.
Não é apenas um periodo de seca para isto, para esta esquina onde paramos as amigas a saudar, leliadourar-nos e querer-nos. É a seca. Porque aborreces o mundo e não sabes que contar que mereça ser contado. Não sabes se che importa essa história que algum dia nasce nos intermédios. Porque estás nessa época em que gostavas de deixá-lo tudo, ou se não arrasar. Provocar, gritar, dizer-lhe a todo o mundo que olhe ao seu redor, que não deixe de olhar ao seu redor.
Apesar de tudo, as secas tenhem também o seu final. Embora o câmbio climático.
Prometo-vos calar quando não tenha nada que dizer, ser prudente se for necessário e arriscada se a situação o precisar. Prometo-vos ter as palavras justas quando a musa me acompanhe, e reconhecer que não as tenho quando o coração se feche . Prometo abraçar-vos, tanto se o necessitades como se não. Prometo que não vou saber como hoje não sei, e esta ignorância dara-me força para continuar buscando. Prometo indignar-me e sofrer quando o mundo continue a ser imundo. Prometo guardar um bocado de felicidade sempre para a supervivência. Prometo ser eu, como sempre, o bolinho laila_lilás, que vos quer e por isso vos agradece, por fazer-lhe mais fácil a vida ao estar comigo. Outro ano mais.
Olham-se frente a frente. Estám de pé, descansando o peso primeiro na perna esquerda e depois na direita. Com umha sincronizaçom tam perfeita que parecem atletas. Nom sabem quanto tempo levam assim, olhando-se. Nom o sabem porque o tempo nom significa nada. Nom existem, dim na física. Nem o tempo nem o espaço. Porque essa distáncia de olhar-se frente a frente tampouco existe.
Se param um bocadinho a pensar, poderiam acreditar em que é um desafio. As olhadas fixas, quase sem pestanejar, duas lágrimas que denunciam a comichom do esforço polos olhos abertos, a teimosia de ficar ali de pé, frente a frente, sem ceder ao cansaço ou ao aborrecimento.
Porque o tempo nom existe. Se existisse teriam um passado. Já se sabe, quem nom tem um passado quando o tempo existe? E esse passado talvez fosse umha pingueira na memória deixando as suas marcas. Umha pingueira fazendo erosom até modelar os corpos, as imagens, as expectativas, o futuro...
Por isso podem alegrar-se. Porque o tempo nom existe, segundo a física.
Numha decisom inesperada, abrem a boca para falar-se, em simultáneo. É tal a surpresa que nom conseguem fazer sair a voz. Esboçam um sorriso. E ao pensá-lo nesses termos “esboçam um sorriso” fam-se tanta graça que rim em alto, com uma gargalhada. Porque efectivamente o sorriso é o bosquejo que inicia a gargalhada.
Em pouco tempo voltam a calar. Por algum motivo escolhem o silêncio. Falam-se com a pele, como se fossem bebés e essa fosse a primeira carícia que se dam. Por umha vez nom existe a palavra.
Mas falam-se. Com a pele, com o riso. Nom com o riso apertado esse que dói apenas ao olhá-lo. Falam-se com um riso que ensina os dentes, embora estejam amarelos da nicotina e da espera.
Tocam-se com o alento, desenhando em bafo carícias e pele. Sopram sobre o corpo e por um momento a olhada dança polo pêlo, por cada um dos milhons de pêlos sobre a carne.
Estám de pé, frente a frente, olhando-se como se acabassem de nascer e nunca tivessem olhado nada antes. Dam um passo cara atrás e muda a perspectiva. Depois dous cara adiante. Umha última olhada ao corpo nu. Nada. Por um impossível segundo –porque o tempo nom existe- estranham-se. Talvez procuram algo no seu corpo. Aproximam-se mais um passo até quase tocar-se e começam o trabalho científico. Cada centímetro de pele, cada milímetro é investigado minuciosamente. Nada. Depois de tanto tempo, nada? Apenas a brancura da pele e a humidade. Certo. Nom o precisam. Nom necessitam nengumha marca de amor. Apenas amor. Sem marca.
E quando consegues soltar o medo, abandoná-lo, andas pisando ovos. Medindo o peso, com prudência. Como uma funambulista principiante neste circo, o da vida, muito mais surrealista e decadente que qualquer outro. Mas com o equilíbrio das amigas e do amor. Duas das cousas verdadeiramente importantes.
Agarras-te ao que tens a mão. Lástima que neste momento apenas tenhas o medo. Por isso agarras-te a ele e confias em que é melhor isso que nada. Nem sequer és consciente da descrição do medo, de que rosto tem, de a que parte do teu corpo ataca. Porque tens algo a que agarrar-te.
Esqueces que não é necessário.
Lendo a Alba Rico, tudo me parece excesivamente superficial. A minha vida: superficial, a minha dor: superficial, a minha literatura: superficial... Tudo terrívelmente banal, sem importância. Mas pode que também necessário. Necessária para a sobrevivência a minha dor, a minha literatura. Necessário ser humanos e deixar-se caer e levantar, arranhar felicidade das pequenas cousas quando as grandes se empenham em ir mal. Ler filósofos que nos dão a exacta medida da nossa superficialidade, e saber que é necessária.
Todo o que palpita é necessário.
E que rápidas são as debilidades. Ainda bom que eu sou forte.
Visitá-los apenas para que che digam o que não queres saber. Para confirmar-te que tens medo a... A quem lhe importa? Enganaste com absoluto conhecimento de causa, consciente de qual é a mentira que precisas em cada momento. Como agora, que sabes que o correcto é abandonar. E abandonas. Até a próxima debilidade.
Apetece ficar na casa, sem livro nem música, sem filmes, sem chuva. Apetece ficar na casa numa posição impossível, preferivelmente no sofá, com o olhar fixo, apenas fixo. Quer dizer, fixado, colado sem nada ou ninguém para olhar. Apetece desligar o computador, que a internet não te ligue a nada por uns escassos minutos. O telemóvel escondido. Apetece cometer erros ortográficos e meter o dedo no nariz. Apetece escrever mal, mesmo mal, dizer um monte de cousas ridículas, rápido, sem pensar, e que nenhum sujeito concorde com o predicado nem contigo.
Apetece não parar nunca de escrever neste post mesmo quando já não haja nada a dizer. Porque afinal não há nada a dizer (polo menos nada há que não vos diga em pessoa a cada um, a cada uma). Apetece falar sem ter nada que dizer, por uma vez, a inconsciência.
Cansam as dúvidas, a insegurança, a forma de ser impossível de mudar. Cansa aprender amodo, cansa sentir-se derrotada, acabar o curso com a moral polo chao porque não és aquilo que pensavas que eras... A percepção, já se sabe, depende de um milhão de cousas. Hoje, a percepção depende do cansaço.
E tou cansada. Sobretudo, do estúpido e inútil sistema educativo que me faz sentir estúpida e inútil no meu trabalho.